YOU WON'T REALLY SEE ME...

...I live in old movies.

não-biográfico.
[info]roadkid
 Preciso de mãos sem elo, que eu possa ver sentir segurar ao saltar e soltar sem dor. Com elos mais quietos ainda que ardentes. Não posso mais amor em pilhas e tomos, preciso de um elo que dispense esse gatilho. Um elo pelo qual eu não mais me construa e isso desconstroi toda minha ideia de elo; consciências pelo ventos soltas não mais têm que se encontrar no papel.
 
Não tenho já medo de dedos apontados dados inventados ou atentados, mas temo ainda como sempre a dúvida e as consequências de demorar a decidir.
 
Continuo como sempre em prontidão sanguinária na minha antecâmara que jamais dorme no meu superego exagerado. Sou minha antecâmara, repressora que jamais dorme, durmo, dorme.

.
[info]roadkid
 um zumbido e mais nada:
isso é a morte




 
 
 
 
quando há alarde
 
arde uma vida ainda

.
[info]roadkid
Vieram outros mares neste estar incompleto. De ondas que trazem novas águas aos rochedos irremovíveis. Nada tenho em branco a minha espera é branda. Tudo é permeado por restos, cheio deles. As digressões não purificam, a cada suspiro o acumulo e remanesço.

O rompimento, quando abrange o que nunca houve, é mais estranho.

Em cada som um só ponto: cada som: ruído da rua ou som feito aos pormenores: doem.
 
 

e só
[info]roadkid
 morri grávida do nosso amor

.
[info]roadkid
 Pois o que é ser hostil?
Sentir-se assim, só dizer?
Expressar-se, em se sentindo livre?
Nem sempre sem sentido, sei,
se se mostre insensível,
é senil sem sentir ter feito.
Só certo, só incorreto,
incerto e dúbio concreto.
Sem doce toque sucinto nem sentido sobrevivente.
Suporte hostil certeiro e costumeiro
nos segue insistente.

DIE WELLE
[info]roadkid
 um grão de areia
-- fora os que estão pelo ar --
para cada poro do peito dos pés,
A caminhada queima.
faz-se vista uma onda
de um azul diferente,
brilhante e intermitente,
como o das estrelas novas.
A onda cai em si em cambalhotas
enquanto cato conchas negras
que se esfarelam e cheiram mal.
O cheiro me chama
-- que não me escondam nada --,
o eixo me atrai 
por chuva clama a praia.
Gotas chamuscantes em direção ao céu de que roubam a cor,
invade a si mesma
correndo, se alastra, se afoga
Onda de chamas e o mar não a impede
Cíclica, se perde em
seu ângulo que se queima.
nada-se
fura-se fogo
vai pra si e se doi
nada
queima
a onda é seu perigo
ter de si a risco
viver ser ter o risco
Oponentes homicidas são dispensáveis
suicídios diários, inevitáveis.

não lembro quem este aqui descreve.
[info]roadkid
um nariz torto, uma coluna reta
mãos em eterno movimento, com fumaça
se esvaindo pelo vento sem beleza alguma
também ele eterno
qualquer dom se destacaria em sua postura
que, longilínea, inspira
confiança
o nariz bárbaro incita contradição básica
torna a face gélida, quebrando o angelical
dos cabelos caídos retos pelas costas retas.
inspira confiança pela retidão
pelo torto da face
inspira um ar de maldade.

(no subject)
[info]roadkid
ordenação de fatos sem intriga
não se vê qualquer linearidade narrativa
sapatos limpos com restos de lama
das brigas de rua em que nos meteríamos
se estivéssemos abertos a essa limitação
necessária para participar de grupos
com os quais não quereríamos sequer proximidade
poder-se-ia dizer serem coisas da idade
se jovens ainda fôssemos -- não somos
não por direito, só por insistência.
eterna nostalgia e obtusidade com indecência.
somos jovens, então, de mente e de esperança
tortas de consertar antes quebrando.

ato infindo
[info]roadkid
o barulho é o de menos
na tênue divisão
mente versus ambiente
as cores diferem muito
-- as produzidas na cabeça
não existem na natureza --
as pessoas, no entanto,
são as mesmas.

personagens de um conto
que se acaba em morte
sem que a cena se corte.

da falta de qualquer fim
[info]roadkid
o encontro mortal
de fios quebradiços frágeis que suportam toda uma vida
não se entende como o máximo teor de se
ser e encaminhar
se entende como
um fluxo de viver
e não parar
se deparar com o
prazer ou com a falta dele
é tudo central na questão
do motivo de se estar aqui
e querer.

pensamento
[info]roadkid
Inesperadamente, alguém lhe disse, casualmente, que talvez fosse em um céu onde se poderia estar com os pés no chão e, mesmo estando vazia nesse dia, entendeu perfeitamente o que foi dito.
Entendeu que seria em uma situação assim que se saberia onde estar, estando em lugar algum de maneira que não se precisasse saber onde se estava.
Poderia-se apenas estar.
Não ser, porque ser se é sempre.
Mas estar.
De uma maneira em que se poderia estar em qualquer local.
Não seria preciso estar em, mas estar por.
Apenas isso seria tudo e mais nada seria informação relevante para entender o sentir de alguma felicidade.

.
[info]roadkid
eu estaria, a essas alturas, completa se
fosse verdadeira a ausência
de temor do que não se deve ser.

eu sei que eu choro mágoas etéreas demais
que você não entende eu chorar o que não sou.

eu sei que é difícil compreender
que minha negação
também é em minha concretude de ser.

não precisa pisar comigo
a linha do caminho dos
meus assuntos de
mar em ondas ferozes
sequenciais

repetidas vezes me olho
e o espelho mente sempre
que posso parar de fazê-lo.

repetidas vezes me julgo
e uma senhora justiça que
é parasita em mim
mente que posso
ter uma consciência translúcida.

consciência que me foge
na medida do meu andar
que por sua vez foge
de saber aonde vai.

consciência que me tolhe
de repetir minhas ações
melhor

eu seria um produto
se não fosse meio.

é o problema de sempre
[info]roadkid
a pauta do caderno
é bem mais reta que o poema

ainda que ele fosse um traço




(por isso ninguém diz
que traçou um poema?)

segundo por segundo
[info]roadkid
gaveta por gaveta
entende
papel por papel
bagunça
palavra por palavra
reduz
dia a dia
aumenta
e enche.

I
[info]roadkid
Acende um cigarro. O taxista olha torto pelo retrovisor. Não sabe se ela percebeu, pois os óculos tapam boa parte do rosto e o pouco de expressão que se vê não muda. Ele se lembra daquela loja cheia de placas que viu — banheiro, entrada, saída, cachorro bravo, etc. — e finalmente se arrepende de não ter comprado o de proibido fumar no carro.
Ela desce. É o local errado. Quando percebe, o taxista já se foi. Ele até esperou que ela entrasse. Muitos taxistas preocupados e prestativos pela cidade. É o segundo em uma semana. Talvez sejam anjos mandados pela mãe.
Liga, resolve: amiga de amiga virá buscá-la. É perto, afinal. Um carro para. Não consegue ver se é a amiga. A amiga é loira. Não sabe se é. O carro está parado e o sinal está aberto. Vê uma luz de isqueiro. Parece um sinal. É um uno vermelho. Só uma pessoa dentro. Deve ser a amiga. Corre até o carro. Apaga o cigarro no caminho. Entrar fumando em carro de amigo que não (sabe se) fuma é falta de educação. Mas não entra. Ao se aproximar — e já ter gastado metade de um cigarro — vê que é uma mulher qualquer. Morena de cabelos curtos. Não é a amiga. A mulher fuma, parada com o carro, olhando fixamente. De leve se assusta, mas disfarça e sai. Volta à porta do local. Pensa em entrar, mais seguro, mas reacende a metade cuja ponta esmagou em um poste sujo da rua para não desperdiçar. Está péssimo amassado, mas continua para passar o tempo. Odeia cigarro. Mas às vezes acha bom, no vazio. E sem ninguém vendo, julgando, oferecendo da próxima vez em que a vê porque "naquele dia eu vi você fumando, então não diga que não fuma". Fuma, mas não é fumante. Ninguém entende isso. Que se pode concordar e discordar.
"Cinema Brasileiro" na placa e lê Charles Baudelaire. Queria ler agora. Mas é melhor ficar atenta à rua.
O guarda da boate a aborda e pergunta se está tudo bem, se precisa que chame um táxi. Ela diz que não, obrigada, aguardo amigos que estão para chegar.
Chegam três homens de roupas parecidas, escuras, um de jaqueta maior que seu tamanho — diria-se o líder. Pedem a ela um isqueiro. Ela o tem em mão. Empresta e se afasta discreta, aproximando-se da porta do local com música alta. O suficiente para confundir sons de tiros talvez. Devolvem o isqueiro agradecendo. O que se diria ser o líder olhando fixamente muito para dentro de seus olhos com a atenção agora um pouco desviada da rua. Ela se afasta mais um passo.
O da esquerda pede um cigarro. Está sem. Ela dá a carteira. "O último. Que honra." Ao devolver, em um movimento rápido pega seu braço e sai andando com ela. Calmamente. O líder logo tapou sua boca — que era só o que o taxista via. O guarda viu de relance já a uma distância e supôs que fossem os amigos por quem ela esperava.

Achei que já fosse
[info]roadkid
Achei que tivesse me matado em março
desatado aquele laço que nos traiu
nos apertou sem permissão
Aproximamo-nos tanto que quisemos sair

Mas é bom
ter a noção de fim
mesmo que só se perceba isso ao reparar
que vemos os mesmos formatos nas nuvens
e temos os mesmos batimentos
Só assim para não poder negar
que um ao outro já não acrescenta nada.

nós não desatamos mais nós
[info]roadkid
de mãos esvaziadas
e olhos sem bússola

não somos mais os mesmos
não somos mais donos de nós
nem corremos por beiras catando grãos

agora somos donos de nós
nos controlamos como pessoas inteiras
e não nos perdemos sendo sós
não sentimos mais dor de ausência de um segundo
de silêncio em resposta ao mundo
agora a gente sofre menos
a gente sabe o que quer e nem precisa saber
controlamos querer querer.
a gente sabe o que quer e nem precisa saber
quem quer porque temos alguém que basta
a gente pensava que não precisava
de nada mais, muito menos de
qualquer coisa que bastasse
a gente agora é gente grande
que entende finalizações
e que não teme ter coisas que se bastam nelas mesmas
que diferencia conformismo de assentar a vida.

entropia
[info]roadkid
a borracha esquenta
o papel esfria com a orfandade de um termo.

t gera t
[info]roadkid
Os olhos olham para a própria barba. Inevitavelmente estrábicos. Debatem (quem vê de longe pensa que olham o nariz), quem sabe devem olhar pra frente mais vezes. Discordam. Mudam de opinião. O rosto envermelha com a agitação. Prevê-se dor de cabeça. Branco rubro cada vez mais nos dois inquietos. A caixola os manda parar. Manda que analisem a própria barba ainda. Manda que procurem por sujeiras. Resignados, voltam ao trabalho. Têm certeza de que não há nada, muito já vasculharam com seu único sentido. Surpreendem-se. Veem uma gota que antes não havia. É sangue que escorreu de tanto procurarem.

.
[info]roadkid
reaciono as impotências
inatas me apodrecem
tornar insípido enriquece as certezas
banalizando assassinar dúvidas
quanto a valer a pena, me abstenho
assumir a postura de que me doo mas faço não me apraz
mergulhar em voo que quebra as asas...
essas pessoas que enchem o peito ao dizerem
'eu vivo!'
'eu não nego, olho para trás!'
'eu mastigo, vomito e mastigo de novo!'
'eu choro e disso sou capaz!'
essas não entendem (presunção minha)
que ser pessoa é ter contradição
mas que isso não mata uma busca
por coerência
pois ninguém se basta
ninguém se aguenta sem se odiar
e quem se contenta com arder indefinidamente
não faz sentido dizer que é daí
que se alimenta para crescer
crescer é, creio, também querer parar de doer








nem que seja para aguentar a próxima dor

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